Já
dizia o poeta que “Amigo é coisa para se guarda, Debaixo de sete chaves, Dentro
do coração, Assim falava à canção que na América ouvi, mas quem cantava chorou,
ao ver seu amigo partir.” Tive um amigo muito especial em minha vida, na época
em que vivia com tédio, quando nada parecia interessante, na adolescência, aos
dezesseis anos. A amizade durou até eu me casar, aos vinte e um anos, pouco
tempo depois quando ele tinha trinta anos, ele partiu e me deixou com saudade.
Acho
que era verão, eu ainda não tinha terminado o ensino médio quando depois de uma
conversa e um sorriso nos tornamos amigos. Lembro-me como se fosse hoje, ele me
dizendo: “somos apenas bons amigos, não vai se apaixonar por mim.” Dei duas
gargalhadas e disse que ele corria o mesmo risco, ele riu e disse que a
adolescente era eu e que são as adolescentes que costumam viver se apaixonando.
Desse dia em diante resolvi que ia provar o contrário, que não era só porque
ele já tinha seus vinte e poucos anos que não poderia se apaixonar por uma adolescente,
que eu era tão inteligente quanto às moças mais velhas e isso, e aquilo e bla,
bla, bla, como as adolescentes que acham que são adultas costumam fazer. Só
depois descobri que eu era realmente boba e que ele era muito especial, muito
mais que um simples namorado ou uma simples paixonite. Como num filme de
romance ele foi meu acompanhante de formatura, me deu flores e disse que eu era
uma pessoa maravilhosa, isso marcou minha vida.
Conversávamos
sobre política, filmes, romances, moda, assunto não faltava. Gostávamos das
mesmas coisas, boa música, show, praia, comer fora, jogar conversa fora, sorrir
de tudo e de nada ao mesmo tempo. Andávamos de mãos dadas como se fôssemos
namorados, íamos ao museu, a biblioteca ou simplesmente conversávamos no meu
portão. Faltavam feriados e fins de semana para estarmos juntos. Ele trabalhava
num escritório no Hospital dos Servidores no Rio e só tinha tempo para mim nos
fins de semana e feriados. Eu esperava ansiosamente para estarmos juntos e
podermos conversar sobre qualquer assunto, sem complicações, medo, vergonha,
era muito bom conversar, andar, estar com ele. Num domingo, parece que ele leu
meus pensamentos, estava em casa pensando, “hoje é o dia da apresentação do
balé na Quinta da Boa Vista, como eu queria ir," não demorou dez minutos e
ele chegou a minha casa para me levar ao balé, quase chorei de tanta emoção. A
apresentação foi maravilhosa, era a primeira vez que eu assistia um teatro de
verdade, chegamos cedo e pegamos um bom lugar, ficamos até o final da apresentação
quando irrompeu uma chuva de aplausos.
Nossa
amizade sofreu um baque quando ele arrumou uma namorada, morri de ciúmes, e não
consegui esconder, fui tirar satisfações com ele e o tempo esquentou. Parece
que a namorada dele percebeu, não foi nada legal. Foi assim: no fim de semana,
sexta-feira, seria feriado, liguei para ele e perguntei para onde iríamos, ele
muito educado disse que ainda não tinha pensado em nada que depois me ligava.
Eu sabia que ele sempre pensava em tudo, então isso era muito estranho. Ele
provavelmente imaginou que eu ficaria triste se ele me contasse por telefone
que estava namorando, então não falou nada. Só que, por ironia do destino,
minhas colegas me chamaram para ir á Paquetá e eu aceitei, chegando lá quem eu
vejo aos beijos com uma linda mulher, ele mesmo. Não disse nada, saí de perto,
mas minha cara disse tudo. A garota, claro, não foi com a minha cara, o pior de
tudo é que eles ainda tiveram que me levar em casa, porque a barca demorou e
quando chegamos à Nova Iguaçu já era noite, visto que ele morava perto de mim e
as meninas que estavam comigo longe, elas pediram para ele me levar em casa.
Depois
desse dia percebi que nossa amizade era muito importante, muito mais que as
namoradas que ele arrumava, pois elas iam e vinham e nossa amizade permanecia.
Quando chegou a minha vez de namorar foi ele que sentiu ciúmes, porém não disse
nada, continuamos amigos. Conversando, saindo juntos para diversos lugares,
fazendo planos para o futuro, rindo muito, sem pensarmos na vida particular de
cada um. Éramos amigos e pronto, não tinha o que discutir, falávamos de quase
tudo, pois excluíamos o assunto namoro.
Hoje,
o que me resta são as lembranças de uma amizade que ficou no coração. Por força
maior, sem querer, ele se foi, mais deixou comigo um pouco dele, a alegria, o
sorriso, o olhar, as boas conversas e os momentos felizes que passamos juntos.
Como disse o poeta: “pois seja o que vier, venha o que vier, qualquer dia
amigo, eu volto a te encontrar, qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.”
No dia
anterior ao meu casamento ele revelou que havia se apaixonado por mim e pediu
que eu não me casasse, percebi aí que todo esforço de fazê-lo se apaixonar por
mim funcionou, só que quando eu menos esperava. Agora era tarde, não havia o
que fazer, ele teve muitos momentos comigo e não disse nada, na realidade
fiquei com muita raiva, ele não podia ter feito isso comigo, mas enfim, era a
vida. Casei-me e nossa amizade não pode continuar como antes, senti muita
falta. Alguns anos depois nos encontramos em uma festa, e colocamos em pratos
limpos nossas mágoas, rimos dos bons tempos e nos perdoamos pelas loucuras da
juventude. Dois dias depois recebi a notícia que ele havia morrido, sofri,
chorei, gemi de dor, só quem perde um grande amigo é que sabe a dor que senti,
aliás, era muito mais que um amigo era alguém muito especial, que na realidade
continua vivendo em meu coração; por isso faço minha as palavras do cantor:
amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a
distância diga não. Mesmo esquecendo a canção, o que importa é ouvir a voz que
vem do coração.