segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ALGUÉM MUITO ESPECIAL


Já dizia o poeta que Amigo é coisa para se guarda, Debaixo de sete chaves, Dentro do coração, Assim falava à canção que na América ouvi, mas quem cantava chorou, ao ver seu amigo partir.” Tive um amigo muito especial em minha vida, na época em que vivia com tédio, quando nada parecia interessante, na adolescência, aos dezesseis anos. A amizade durou até eu me casar, aos vinte e um anos, pouco tempo depois quando ele tinha trinta anos, partiu e me deixou com saudade.

Acho que era verão, eu ainda não tinha terminado o ensino médio quando depois de uma conversa e um sorriso nos tornamos amigos. Lembro-me como se fosse hoje, ele me dizendo: “somos apenas bons amigos, não vai se apaixonar por mim.” Dei duas gargalhadas e disse que ele corria o mesmo risco, ele riu e disse que a adolescente era eu e que são as adolescentes que costumam viver se apaixonando. Desse dia em diante resolvi que ia provar o contrário, que não era só porque ele já tinha seus vinte e poucos anos que não poderia se apaixonar por uma adolescente, que eu era tão inteligente quanto as moças mais velhas e isso, e aquilo e bla, bla, bla, como as adolescentes que acham que são adultas costumam fazer. Só depois descobri que eu era realmente boba e que ele era muito especial, muito mais que um simples namorado ou uma simples paixonite. Como num filme de romance ele foi meu acompanhante de formatura, me deu flores e disse que eu era uma pessoa maravilhosa, isso marcou minha vida.

Conversávamos sobre política, filmes, romances, moda, assunto não faltava. Gostávamos das mesmas coisas, boa música, show, praia, comer fora, jogar conversa fora, sorrir de tudo e de nada ao mesmo tempo. Andávamos de mão dadas como se fossemos namorados, íamos ao museu, a biblioteca ou simplesmente conversávamos no meu portão. Faltavam feriados e fins de semana para estarmos juntos. Ele trabalhava num escritório no Hospital dos Servidores no Rio e só tinha tempo para mim nos fins de semana e feriados. Eu esperava ansiosamente para estarmos juntos e podermos conversar sobre qualquer assunto, sem complicações, medo, vergonha, era muito bom conversar, andar, estar com ele. Num domingo, parece que ele leu meus pensamentos, estava em casa pensando, “hoje é o dia da apresentação do balé na Quinta da Boa Vista, como eu queria ir," não demorou dez minutos e ele chegou em minha casa para me levar ao balé, quase chorei de tanta emoção. A apresentação foi maravilhosa, era a primeira vez que eu assistia um teatro de verdade, chegamos cedo e pegamos um bom lugar, ficamos até o final da apresentação quando irrompeu uma chuva de aplausos.

Nossa amizade sofreu um baque quando ele arrumou uma namorada, morri de ciúmes, e não consegui esconder, fui tirar satisfações com ele e o tempo esquentou. Parece que a namorada dele percebeu, não foi nada legal. Foi assim: no fim de semana, sexta-feira, seria feriado, liguei para ele e perguntei para onde iríamos, ele muito educado disse que ainda não tinha pensado em nada que depois me ligava. Eu sabia que ele sempre pensava em tudo, então isso era muito estranho. Ele provavelmente imaginou que eu ficaria triste se ele me contasse por telefone que estava namorando, então não falou nada. Só que por ironia do destino minhas colegas me chamaram para ir á Paquetá e eu aceitei, chegando lá quem eu vejo aos beijos com uma linda mulher, ele mesmo. Não disse nada, sai de perto, mas minha cara disse tudo. A garota, claro, não foi com a minha cara, o pior de tudo é que eles ainda tiveram que me levar em casa, porque a barca demorou e quando chegamos à Nova Iguaçu já era noite, visto que ele morava perto de mim e as meninas que estavam comigo longe, elas pediram para ele me levar em casa.

Depois desse dia percebi que nossa amizade era muito importante, muito mais que as namoradas que ele arrumava, pois elas iam e vinham e nossa amizade permanecia. Quando chegou a minha vez de namorar foi ele que sentiu ciúmes, porém não disse nada, continuamos amigos. Conversando, saindo juntos para diversos lugares, fazendo planos para o futuro, rindo muito, sem pensarmos na vida particular de cada um. Éramos amigos e pronto, não tinha o que discutir, falávamos de quase tudo, pois excluíamos o assunto namoro.

Hoje o que me resta são as lembranças de uma amizade que ficou no coração. Por força maior, sem querer, ele se foi, mais deixou comigo um pouco dele, a alegria, o sorriso, o olhar, as boas conversas e os momentos felizes que passamos juntos. Como disse o poeta: “pois seja o que vier, venha o que vier, qualquer dia amigo, eu volto a te encontrar, qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.”

No dia anterior ao meu casamento ele revelou que havia se apaixonado por mim e pediu que eu não me casasse, percebi aí que todo esforço de fazê-lo se apaixonar por mim funcionou, só que quando eu menos esperava. Agora era tarde, não havia o que fazer, ele teve muitos momentos comigo e não disse nada, na realidade fiquei com muita raiva, ele não podia ter feito isso comigo, mas enfim, era a vida. Me casei e nossa amizade não pode continuar como antes, senti muita falta. Alguns anos depois nos encontramos em uma festa, e colocamos em pratos limpos nossas mágoas, rimos dos bons tempos e nos perdoamos pelas loucuras da juventude. Dois dias depois recebi a notícia que ele havia morrido, sofri, chorei, gemi de dor, só quem perde um grande amigo é que sabe a dor que senti, aliás era muito mais que um amigo era alguém muito especial, que na realidade continua vivendo em meu coração; por isso faço minha as palavras do cantor: amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não. Mesmo esquecendo a canção, o que importa é ouvir a voz que vem do coração.

Janete Chrispim